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domingo, 12 de julho de 2015

Eva Wilma relembra Raul Cortez, seu amigo de juventude

Eva Wilma relembra Raul, seu amigo de juventude

Tenho uma excelente recordação, porque eu liguei a última vez em que estive com o Raul – foi no aniversário dele no sítio, numa linda festa com a família, com amigos, e Raul dançou; teve, inclusive, uma das amigas que levou trajes de dança espanhola e dançou um número, e ele participou – eu me remeti ao início do nosso relacionamento, depois de termos nos conhecido por intermédio da minha melhor amiga, a Regina Cortez, a irmã que o Raul adorava. Ela era muito bonita, provavelmente tão talentosa quanto o irmão, e nós nos conhecemos, na verdade, quando eu ia a Itanhaém. O doutor Rui Cortez tinha sido prefeito de Santo Amaro, que era município independente, e a família do doutor Rui tinha uma casa de praia em Itanhaém. Nessa casa de praia, eu me lembro de Regina e eu dormindo juntas e olhando um mosquitinho no teto, e Raul ali. Nós íamos de tamanco para o cinema, e a gente tirava o tamanco e ia descalça também; era uma época onde, provavelmente, nós tínhamos uns 15 para 16 anos. A amizade continua porque, por influência do doutor Rui, nós tínhamos desconto num lugar adorável perto do aeroporto, que era também boate, Moulin Rouge, e lá nós podíamos jantar aos sábados ou às sextas-feiras, conforme a possibilidade e em turma também; e, além de jantar, dançar. E eu tenho uma recordação, não sei se é fantasiosa, mas acho que não é, acho que é verdade, nós dávamos uma canseira em todos. Nós, eu digo, Raul e eu. Porque os outros desistiam e Raul e eu continuávamos até pelas quatro da manhã, dançando valsa, tango, rumba, samba, o que viesse. Então, eu estou ligando essa última vez, no último aniversário dele, com as temporadas em que estou nos vendo dançando com 17 para 18 anos. Depois disso, naquela época, nós provavelmente nem sonhávamos ainda muito. Talvez assim aspirávamos a nos mostrar, não é, dentro dessas habilidades; além de dançar, também representar, falar.

E assim nós começamos, Raul por sua vez, eu pela minha, na formação do Teatro de Arena. No cinema, acho que a primeira vez em que eu falei como atriz foi numa figuração, num filme dirigido pelo Luciano Salce. Mas isso não vem ao caso, o que vem ao caso é que Raul também deve ter tido a sua primeira fala. E o muito gostoso é que nós nos reencontramos representando num espetáculo que deu muito o que falar. Raul estreou no Black-out, dirigido pelo Antunes Filho, no Rio de Janeiro. Era um personagem que foi estreado em São Paulo pelo saudoso Ivan de Albuquerque, grande ator e diretor. O Ivan saiu para outro rumo e o Raul estreou no Rio.

Aí nós temos uma história deliciosa também. Deliciosa. E também recordações de um período sofrido para todos nós, não é? Um período em que todos nós, atores, artistas em geral, não gostávamos da questão da ditadura militar. Era Rio de Janeiro, era fim de 1969; teve a morte do estudante no Calabouço, ao lado do Teatro Maison de France, onde nós estávamos com o Black-out.
Os teatros fizeram greve de três dias e três noites, nas escadarias do Teatro Municipal, não só do Rio como de São Paulo. Todos os atores, por causa da censura. Estavam censurando espetáculos, fechando teatros – não foi o caso do Black-out –, mas nós líamos todas as noites os manifestos escritos, eu me lembro muito bem, escritos pelo Hélio Pelegrino, publicados na primeira página do Jornal do Brasil, e nós líamos em cena antes ou depois do espetáculo. Ivan Cândido, que substituiu na época alguém de São Paulo, dizia que ele conhecia bem vários agentes que estavam vigiando essas nossas lidas de manifestos.

O Raul interpretava o antagonista da peça, era um paranóico, o bandido-chefe que lutava de faca com a ceguinha, minha personagem. Era uma peça de suspense fantástico, uma direção primorosa do Antunes, e nós fazíamos com muito prazer. No final, o grand-finale, digamos assim, a ceguinha saia de dentro do quarto engatinhando, porque ela teria conseguido se livrar desse paranóico, mas ele, com a faca na mão – minha personagem se chamava Susy, ele se chamava Skelton –, dizia: Acabou, Susy, a faca está aqui, comigo. Quando o Raul fez isso, com a genialidade e o talento de sempre, a faca escapuliu da mão dele e espetou numa poltrona da primeira fila. Felizmente, vazia. Exatamente. Nós nunca esquecemos desse episódio porque, na hora dos agradecimentos, antes da leitura do manifesto, uma pessoa, um homem com maus olhados, com cara meio brava, devolveu a faca pelo cabo, dizendo: Tomem mais cuidado com isso. Imaginação nossa ou não, pra nós era um agente da repressão. São momentos que nós vivenciamos de muita luta. E de um trabalho muito vitorioso, ao mesmo tempo, não é? Quatro meses. Estreou em janeiro e ficamos os quatro meses mais conturbados, em 1969, em pleno Rio de Janeiro, no centro da cidade, ao lado do Calabouço, com baionetas na porta.

A outra parceria com o Raul, acho que uma até anterior a isso, não tenho bem certeza, mas no mesmo ano, foi o filme que nós fizemos juntos: A Arte de Amar Bem, dirigido por Fernando de Barros, altamente sofisticado. E tem uma foto de nós dois; eu, assim, meio caída e ele me segurando, nós éramos dois figuraços. Cinema, no qual nós contracenamos, foi só isso.

Além dessa grande parceria no teatro, na televisão a primeira parceria que aconteceu eu acho que foi em O Rei do Gado, se não me engano, eu acho que foi isso... Não, não. Só pra desfazer toda e qualquer confusão – que, assim de improviso, começo a misturar um pouco as coisas – no Rei do Gado nós não contracenamos, apenas participamos das idas pro interior de São Paulo, lá perto de Amparo. Ficávamos ali no campo; e eu me lembro que admirei demais a atuação dele e gostei de fazer esse trabalho também, então eu tenho orgulho de termos estado num trabalho como esse. Agora, na novela Esperança, não só contracenamos, como aí eu tenho uma recordação muito interessante, pois nós fomos marido e mulher.
Na primeira fase, o Fernando de Carvalho ousou e conseguiu gravar na Itália, num lugarejo chamado Civita di Bagnoreggio, que é um castelo no alto, bem no alto de uma montanha. E eu tenho memórias absolutamente maravilhosas do nosso convívio, Raul, Walmor (Chagas) e eu. Tenho memória do cansaço que era galgar aquela imensa ladeira lá pra cima: atores, técnicos, câmeras. E de gravar com muita satisfação, cenas altamente poéticas. A lembrança mais poética que eu tenho é que depois, nos estúdios, encerrando essa primeira fase, minha personagem (engraçado, é parecido com o Rei do Gado; também no Rei do Gado a primeira fase terminava com a morte da minha personagem), em Esperança também morre, numa cena junto ao marido, o Raul Cortez. E ele fica conversando, e ela vai deitando a cabeça na mesa, vai deitando a cabeça na mesa e fica quietinha, ele continua falando e falando mais devagar, e mais devagar e percebendo que ela já não está mais lá. É isso.

Então eu acho que não só os personagens ficam pra sempre, como essa minha parceria com o Raul dançando, na minha memória, é altamente poética.

Acho que o Raul tinha um talento tão diversificado. Ele podia fazer vilões, ele podia fazer heróis, ele podia cantar, dançar e representar com a alegria que só o verdadeiro ator tem.




http://aplauso.imprensaoficial.com.br/edicoes/12.0.813.222/12.0.813.222.pdf

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Natal


fonte: Facebook Oficial da atriz

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Mensagem de Fim de Ano