Júnior Bueno

Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Sem contestar a genialidade do dramaturgo, ele estava errado. Algumas poucas pessoas possuem uma trajetória de vida e trabalho tão irretocáveis que, ao mesmo tempo, possuem a admiração de seus pares, o respeito da crítica e o encantamento do público. Eva Wilma é uma dessas unanimidades. A atriz, que figura como uma grande dama das artes cênicas do País, num panteão que abriga Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Bibi Ferreira e alguns outros nomes, completou no ano passado 80 anos de vida e 60 de carreira, iniciada ao mesmo tempo no teatro, no cinema e na TV.
Apesar de se destacar nas três vertentes, ela reconhece o teatro como o lugar onde o ator mais se realiza: “No momento em que a peça é encenada, o ator é soberano”, costuma dizer. Quem nunca teve a chance de ver a atriz em cena no teatro neste “momento soberano” pode conferir de amanhã a domingo, a performance de Eva como Blanca Estela, uma grande dama do teatro na metalinguagem da peça Azul Resplendor, em cartaz no Teatro Sesi. A peça é um marco comemorativo do aniversário e das seis décadas desde a estréia da atriz.
A pequena bailarina Eva Wilma Riefle tinha nove anos quando tirou uma foto de tutu e sapatilhas. No retrato, escreveu uma nada modesta dedicatória: “Esperando ser brilhante minha carreira, deixo aqui uma recordação do início desta.” Não poderia estar mais certa a previsão. “Desde cedo, já estava convencida de que seguiria a carreira artística”, disse Eva, em entrevista ao Essência (leia abaixo). Ela ainda aprenderia a tocar piano e violão, tendo como professora ninguém menos que Inesita Barroso. Em 1953, a descendente de alemães, russos e judeus estrearia nos palcos com um espetáculo de duas peças, Demorado Adeus, de Tennessee Williams, e Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena. “Uma era comédia e a outra, drama. Por isso consigo passear entre estes dois gêneros muito bem até hoje”, conta ela.
No mesmo ano, Eva estreou na chanchada do estúdio Vera Cruz, Uma Pulga na Balança, e na TV, num projeto novo de Cassiano Gabus Mendes, Alô Doçura, ao lado daquele que viria a ser seu primeiro marido, John Herbert. Com o segundo, Carlos Zara, ela ficou casada até 2002, quando ficou viúva. A série ficou dez anos no ar e entrou para o Guiness Book como o mais longo do país. Sessenta anos depois, Eva habita o imaginário popular, como as gêmeas Ruth e Raquel, da primeira versão de Mulheres de Areia; a adorável vilã Maria Altiva, de A Indomada, e a médica Marta, do seriado Mulher, entre tantas outras personagens eternizadas pela memória do público.
Além da carreira que contabiliza 20 filmes, mais de 70 participações em TV, entre novelas, minisséries e especiais e cerca de 40 peças de teatro, Eva Wilma ainda tem uma história muito forte de luta contra a censura na época da ditadura militar. É icônica a imagem da atriz de mãos dadas com Eva Todor, Tônia Carrero, Norma Bengell e Leila Diniz numa passeata pelas ruas de São Paulo em pleno regime militar. “Um ator tem que ter em mente que popularidade traz responsabilidade”, defende ela.
É com essa consciência de cidadã e artista que Eva encara a vida, “vivendo cada dia de uma vez”, conforme contou, por telefone, ao Essência. Com uma fala pontuada por gargalhadas, a atriz ofegante – já tinha falado com um jornal de Brasília e uma rádio, antes – pediu, logo na primeira pergunta, para não ser chamada de senhora. Um pedido de Eva Wilma é sempre uma ordem.
Entrevista – Eva Wilma
O HOJE – A peça Azul Resplendor retrata os bastidores da dramaturgia e marca 60 anos desde que você pisou o palco pela primeira vez. O que a atraiu no texto do dramaturgo peruano Eduardo Adrianzén?
O humor crítico. É um autor que mergulha fundo na dramaturgia, porque além de escrever peças, ele também é professor de dramaturgia. Na peça ele retrata vários tipos de atores. São um ator e uma atriz jovens lutando para fazer sucesso a qualquer custo, um diretor histriônico e sua assistente e dois atores da nossa faixa, setentões em fim de carreira.
É verdade que o autor já conhecia sua carreira?
Culpa dessa janelinha chamada TV, que leva a gente para todos os cantos do mundo. Ele já tinha me visto em novelas brasileiras que passaram no Peru e já tinha lido sobre mim em jornais.
Ao fazer um retrospecto da carreira, você pode se considerar uma pessoa que foi predestinada a ser atriz? Poderia ter tido outra profissão?
Dentro das artes eu poderia ter sido bailarina clássica, já que dos nove aos 19 anos eu dancei balé. Poderia também ser pianista ou mesmo violonista, eu estudei violão com a Inesita Barroso, veja você (risos). Acho que ficaria no campo das artes, mas aos 19 anos eu recebi convites que mudaram a minha vida. No mesmo ano estreei no teatro, no cinema e na televisão. E logo com trabalhos marcantes como o Alô Doçura, seriado que ficou dez anos no ar e duas peças com o Teatro de Arena. Não existia um teatro, só a companhia, a gente se apresentou em museus, fábricas, onde chamavam. O maior sucesso veio depois, uma peça em que eu fazia uma bailarina, foi o primeiro grande sucesso da companhia, que deu a eles condições de ter um teatro, que existe até hoje.
Você disse certa vez que o cinema é a arte do diretor, a TV é a arte do patrocinador e o teatro é a arte do ator. A senhora sente mais prazer nos palcos?
Mais ou menos sim. Embora o teatro dependa do autor e do diretor, no momento em que a peça é encenada, o ator é soberano. A TV aberta depende do ibope e há muitas interferências. No cinema, corre-se o risco de filmar no mesmo dia uma cena do meio do filme e em seguida uma do final para então filmarem o começo, para aproveitar um mesmo cenário. É uma realização de algo que só existe na cabeça do diretor. Então, o ator tem que confiar – não que não haja essa confiança no teatro ou na TV –, mas no teatro só existe aquele instante. Para quem vê, não importa o antes ou o depois, o ator é soberano.
Aos 60 anos de carreira a senhora pôde experimentar todas as dramaturgias, fez drama e comédia, mocinhas e vilãs. Existe algo que ainda não tenha feito e gostaria de fazer?
Olha, a essa altura eu quero fazer tudo de novo (risos). Estou brincando, mas com a idade se aprende a viver de forma mais intensa, cada dia de uma vez.
Você tem uma carreira sólida e é uma atriz respeitada. Nos anos 60 a senhora chegou a participar de protestos contra a ditadura. Um ator, como figura pública, deve se posicionar publicamente, ir às ruas também?
Em um regime de exceção, como o que nós vivemos, eu senti a necessidade de me manifestar. Hoje em dia, com a democracia, todo mundo é livre para escolher o que quer e se manifestar como quer, mas quem é ator deve saber sempre que a popularidade traz responsabilidade.
Estamos em época de eleições. Como você vê a atual situação do país?
Engraçado que hoje ainda me ligaram de uma rádio para perguntar o que eu esperava do próximo presidente. Eu tenho uma tese, quase uma utopia, de que um país como o nosso, do tamanho que, é deveria ter umas cinco confederações autônomas, com leis próprias para cada região, mais ou menos como é nos Estados Unidos. Lá em Brasília ficaria só uma meia dúzia de ilustres. Isso diminuiria a corrupção. É isso que eu espero do Brasil: que diminua a corrupção.
Para encerrar, uma pergunta que a senhora deve ouvir sempre do público: quando voltará às novelas?
Estou aqui prontinha para voltar. Estou há mais de um ano sem fazer uma novela inteira, só pequenas participações. Agora estou querendo voltar a fazer, desde que seja um bom convite, de um bom personagem. Pode ser novela, pode ser filme, pode ser teatro. Eu volto com muito prazer.
A peça
Azul Resplendor, escrita pelo peruano Eduardo Adrianzén em 2005, é um retrato sem retoques do ofício do ator. A comédia promove, através de uma combinação entre humor ácido e delicadeza, o encontro marcado que cada um tem consigo mesmo. Apesar de situada na atualidade, a peça revela os bastidores de todos os teatros em todos os tempos. O texto expõe com clareza e ironia os jogos de poder, os afetos, as ambições, as inspirações, as vaidades, as ilusões, as carências, as invenções, as manias e as frustrações dos atores quando se juntam para ensaiar uma peça.
Para desvelar os bastidores dos palcos, a peça se vale de uma galeria de personagens bem conhecidos no mundo do teatro: a célebre atriz dramática, aposentada precocemente; o eterno coadjuvante recalcado; o diretor arrogante e prepotente e sua assistente de direção sem identidade e os atores jovens em busca de fama e poder a qualquer preço.
No elenco, além do resplendor de Eva Wilma, brilham Genésio de Barros, Guilherme Weber, Luciana Borghi, Débora Veneziani e Felipe Guerra. A direção é de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas.
Serviço
Azul Resplendor
Local: Teatro Sesi (Av. João Leite, 1013 – Santa Genoveva)
Datas: Sexta, dia 26, às 21h / Sábado, dia 27, às 21h / Domingo, dia 28, às 20h
Ingressos: R$ 60, a inteira, e R$ 30, a meia-entrada
Classificação etária: recomendado para maiores de 14 anos