No palco, ela vive Blanca Estela Ramírez, uma atriz que há 30 anos está afastada da profissão. No enredo, faz um balanço de seu ofício e divide fatos e lembranças de sua profissão com colegas.
Na vida real, ela bem poderia falar exatamente tudo o que seu personagem diz: ela é Eva Wilma. A única diferença da a atriz é que sua carreira está longe de parar. Aos 80 anos e comemorando 60 anos bem aproveitados nos palcos e nas telas, Eva Wilma apresenta em Santa Maria o espetáculo Azul Resplendor — em duas sessões, hoje e amanhã. Leia a entrevista completa.
Diário 2 — Você enxerga semelhanças entre sua personagem e a sua vida? Quais?
Eva Wilma — Na verdade, todos os seis personagem dizem falas que nós poderíamos dizer. O autor, Eduardo Adrianzén, faz um mergulho nas Artes Cênicas, e é um mergulho bonito. Temos a dupla de atores veteranos, o Genésio (de Barros) e eu, têm os do meio, o Guilherme Weber e a Luciana Borghi, que são um diretor estreônico e sua assistente, e têm os dois atores jovens, a Debora Veneziani e o Felipe Guerra. O ator mergulha com um humor crítico muito interessante nos bastidores das Artes Cênicas. O importante é que minha personagem está fazendo um balanço de vida. Neste ponto existe um paralelo, porque estou comemorando 60 anos de carreira. Têm falas que, na adaptação do texto, eu colaborei. Quando digo: "O tempo que nós fazíamos espetáculos de terças a domingos, com duas sessões no sábado, e duas no domingo", isso é pura verdade.
Diário — Como é poder comemorar seus 60 anos de carreira com apresentando o espetáculo?
Eva Wilma - Foi uma coincidência. Eu estava desenvolvendo outros projetos quando Renato Borghi me ligou. Ele fez uma viagem com Elcio Nogueira Seixas, chamada Embaixada do Teatro Brasileiro, levando textos para países de língua hispânica, e também trazendo outros de lá. Esse texto ele trouxe e disse que era para mim, que tinha de ser eu. Quando eu li, me apaixonei. E foi uma maneira de comemorar em grande estilo.
Diário — Você convive com atores mais novos na peça. Como você enxerga a diferença entre o teatro atual e o do início da sua carreira?
Eva Wilma - O teatro mudou muito a partir do mundo da informática. Porque é verdade o que eu digo na peça: nós fazíamos teatro de terças a domingos. E tinha público para isso. Agora, mudou, e esse aspecto mudou no mundo inteiro.
Diário — Você sempre esteve presente em todas as mídias: televisão, cinema e teatro. Qual é sua maior paixão?
Eva Wilma - Não tenho dificildade nenhuma em responder. É simples e muito claro: eu sou atriz. Como atriz, há 60 anos, exatamente em 1953, eu comecei tendo a chance de trabalhar nos três veículos: teatro, cinema e televisão. Se você me perguntar o que eu gosto, eu gosto de representar, trabalhar textos de bons autores, com personagens que eu me apaixono. Mas tem uma diferença: para mim o teatro é a escola do ator. Eu comecei no Teatro de Arena. Não foi nem palco, foi com público a toda volta. O teatro é o exercício do espaço cênico, do corpo, ao vivo. É a escola do ator. E eu tenho de voltar para escola esporadicamente (risos), para "fazer um intensivo" e continuar evoluindo.
Diário — Como está sendo a turnê pelo Brasil?
Eva Wilma - Estamos há um ano em turnê. Ficamos seis meses entre São Paulo e Rio e depois colocamos o pé na estrada. Passamos por 12 cidades do Nordeste, Centro-Oeste também e estamos chegando ao Sul. É muito interessante e prazerosa essa atitude de formação de plateia nos mais diferentes rincões: fizemos não só Capitais. Passamos por cidades como Juazeiro, na Bahia, e Moçoró, no Rio Grande do Norte, e o público fica extremamente gratificado, se manifesta com a maior felicidade. Para nós é muito prazeroso.
Já em cima do palco, depois que as cortinas estiverem abertas, Eva Wilma irá dizer: “Eu não era só bonita. Era uma boa atriz também. Recebi muitos convites pra trabalhar e acabei me transformando numa estrela. Logo veio a televisão e também um pouco de cinema. Fiz alguns filmes, muita televisão e grandes peças de teatro”. O depoimento não é autobiográfico. Obra de ficção, faz parte do espetáculo Azul resplendor. Mas essas frases guardam tantas semelhanças com a realidade, que essa bem poderia ser uma súmula do percurso da própria intérprete. Prestes a completar 80 anos, Eva também comemora neste ano outra efeméride: seis décadas de carreira. Período em que colecionou uma notável galeria de personagens em peças, novelas e filmes.
Na montagem, a atriz dá vida a Blanca Estela, também uma diva do teatro. O texto aborda o contexto cultural de hoje, época na qual espetáculos não vivem de bilheteria, tornaram-se reféns do patrocínio e dependentes dos meios de comunicação. “É um mergulho nesse universo da arte, pega a essência dessas figuras: do ator, do diretor, do autor. E, usa, para isso o humor crítico, o tipo de linguagem que mais gosto”, resume Eva Wilma.
Ao flagrar o momento atual, Azul resplendor também traz uma contraposição ao passado. “A nossa profissão mudou muito, com o advento da televisão, da informática. E isso é colocado em cena. Fiz até uma contribuição ao texto por isso. Inseri um trecho em que digo que sou do tempo que se fazia teatro de terça a domingo. ”
Semelhanças à parte, existe uma definidora diferença entre atriz e personagem: Blanca Estela fez muito sucesso, mas decidiu recolher-se. Há cerca de 30 anos está distante das luzes da ribalta. Eva Wilma, ao contrário, não tem planos de parar. Ainda recuperando-se de uma cirurgia no quadril, realizada em fevereiro, precisa andar devagar. Prestar atenção para dar um passo após o outro. Mas ela pouco fala disso. Com arroubos de iniciante, faz planos de rodar o País com a nova peça. “Mas não quero ficar restrita a Rio e São Paulo. Isso não. Quero sair por aí. Existem teatros no Brasil que são verdadeiros templos. ”
Atriz comemora 60 anos de carreira
Com seu melhor vestido e luvas nas mãos, estava sempre a postos nas escadarias do Teatro Municipal. Olhava de um lado para o outro, como se esperasse alguém. Era só um jeito de disfarçar até que o público todo entrasse. Só depois que aqueles que tinham ingresso já estavam acomodados, é que o bilheteiro vinha recolher Eva Wilma e tratar de colocá-la para dentro. Foi assim que assistiu aos seus primeiros espetáculos. Mas, bem pouco tempo depois, seria ela quem estaria em cima do palco.
No mesmo Municipal, Eva apresentou-se com as bailarinas do Balé do 4.º Centenário. Havia sido selecionada entre candidatas do Brasil inteiro. Puxava a fila ao som da marcha militar de Schubert. “Foi meu primeiro emprego, o primeiro contrato de trabalho”, conta. “Seriam 19 coreografias. Mas eu pedi demissão depois do primeiro balé, logo no terceiro mês. “
Para explicar o porquê da radical decisão, Eva Wilma diz que precisa recuar um pouco mais no tempo. Até o momento em que conheceu John Herbert, seu primeiro marido. “Um dia, fui visitá-lo em um set da Vera Cruz. Ele estava gravando Uma pulga na balança.
E eu acabei chamada para fazer uma pontinha. Tive que dizer uma fala. Nunca me esqueci. “Foram só algumas palavras. Parece, porém, que tudo havia saído do lugar. “Tudo aconteceu naquele mesmo ano: 1953″, lembra. De pronto, foi chamada para fazer três filmes. Na sequência, conheceu também José Renato, diretor que a carregaria para o Teatro de Arena e a faria encenar, de uma só vez, dois espetáculos: Esta noite é nossa, de Stafford Dickens, e O demorado adeus, de Tennessee Williams. Já seria o bastante para uma estreia. Mas a história não termina por aí. Cassiano Gabus Mendes surgiu no caminho e Eva ganhou o papel de protagonista em Alô, Doçura – a série que permaneceu no ar por dez anos na TV Tupi.
Não foi preciso muito esforço para que o reconhecimento viesse. Dali em diante, a atriz apareceu em filmes marcantes do cinema brasileiro, como Cidade ameaçada (1960), de Roberto Farias e São Paulo S/A (1965), de Luis Sérgio Person. “Com Cidade ameaçada participei da Semana de Cinema Brasileiro em Roma. Foi quando conheci a Europa. E também Person, Gustavo Dahl e Paulo Cesar Saraceni. Quando os filmes terminavam, nós saíamos pela cidade de braço dado, cantando a noite inteira. “
Da intensa passagem pela televisão, na qual se revezou entre mocinhas e vilãs, ela também guarda boas lembranças. De um tempo em que tudo era mais simples, em que as novelas eram gravadas quase ao vivo, quando figurino e maquiagem se resolviam em cinco minutos. “Quando fazia Mulheres de Areia, a mudança de uma personagem para outra era muito simples: para Ruth, dividia o cabelo no meio e colocava uma fivela. Para Raquel, soltava tudo, sacudia e punha um batom vermelho. Era só isso”, conta ela, que participou de outras tramas de Ivani Ribeiro, como Barba Azul (1974) e A Viagem (1975).
Alcançar o sucesso foi fácil. Só que ninguém o mantém por anos a fio sem certa ciência. “Desde o início, sempre fiz questão de ser livre. Não tinha contrato com a Tupi. Queria estar sempre pronta para ir fazer outra coisa, para voltar ao teatro”, observa. “Sabe o que é? O cinema é a arte do diretor. Na televisão, quem manda é a audiência. Mas no teatro quem é soberano é o ator. “
Azul resplendor, espetáculo que ela encena sob a direção de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas, marca seu retorno aos palcos após um hiato de cinco anos. A última montagem havia sido O Manifesto(2007/2008). Mas, aparentemente, essa distância foi apenas circunstancial. Quando fala da profissão que escolheu, Eva lança mão de uma imagem: teria sido “infectada por um micróbio. ” Alguma doença que pode até amainar-se. Mas não tem cura.
A veterana atriz diz que se “formou” no Teatro de Arena. Lá, recebeu os instrumentos de que precisava. Mas nunca teve um pouso só. José Renato a dirigiu até o início dos anos 1960. Depois vieram outros: Eugênio Kusnet, Ziembinski, Ademar Guerra, Antunes Filho.
Todos eles aparecem em sua fala. Cada nome mencionado parece abrir uma gaveta, de onde saltam histórias e ensinamentos. Não lhe fogem datas, nomes, detalhes. Sentada no sofá de sua casa, ela viaja no tempo. Vai e volta. E o passeio só termina quando precisa partir para mais um ensaio. “É hora de ir para o teatro”, ela se despede. “Hora de voltar para escola.”
Com ácido humor, espetáculo revela bastidores das artes cênicas
Caricaturas são verdades exageradas, deturpadas. Mas nem por isso deixam de ser verdades. Em Azul resplendor, o dramaturgo Eduardo Adrianzén carrega nas tintas ao retratar os bastidores de uma trupe de artistas. Traz a diva recolhida há anos que retorna à ativa, o diretor histriônico e prepotente, os jovens atores em busca de fama e holofotes. “É uma peça diabólica. Tenho certeza que nas coxias dos teatros gregos, as coisas já aconteciam desse jeito”, comenta Elcio Nogueira Seixas, que divide a condução do espetáculo com Renato Borghi.
É a primeira vez que os dois atores – que contracenam há 20 anos – se unem como diretores. Para selar a parceria, a obra escolhida foi um título inédito no Brasil. Entre 2008 e 2009, ambos percorreram a América Latina para fazer um mapeamento das artes cênicas no continente. Depararam-se com centenas de peças e artistas desconhecidos. Entre eles, o peruano Eduardo Adrianzén.
Azul resplendor foi escrita em 2005 e alcançou imenso sucesso ao desnudar as vaidades e frustrações que existem por trás das cortinas. “Quando a gente pensa no Peru, imagina um teatro mítico, folclórico. Esse, ao contrário, é um texto muito urbano, que poderia ter sido escrito em qualquer lugar. Assim, existem vários outros textos na América Latina, que rompem com esses estereótipos”, observa Seixas.
Na trama, Eva Wilma vive Blanca Estela. Afamada atriz, ela estava afastada dos palcos havia 30 anos, mas resolve voltar à cena após receber um convite de Tito Tápia. O personagem, interpretado por Pedro Paulo Rangel, é um ardoroso fã de Blanca. Também é ator, mas, ao contrário dela, passou a vida fazendo papéis menores, breves participações na televisão e em espetáculos que não lhe renderam reconhecimento ou satisfação. Além de intérprete inexpressivo, Tito é um dramaturgo de qualidade duvidosa. E, ao receber uma herança da mãe, decide procurar sua paixão platônica e convidá-la a protagonizar uma obra sua.
Blanca Estela aceita o convite. No seu retorno, quem vai conduzi-la será o “grande diretor” do momento, o incensado Antônio Balaguer (Dalton Vigh). Ao seu redor, todos o idolatram (ainda que o desprezem secretamente) e ele acredita estar prestes a “reinventar” o teatro. “Não quer dizer que todos sejam assim. Mas eu já vi coisas muito parecidas por aí, diretor que tem coragem de dizer que é o melhor do teatro brasileiro, que acredita que a arte moderna passa a existir a partir da sua presença”, conta Borghi.
Uma veterana do teatro é convencida a voltar aos palcos. Uma veterana do teatro que nunca abandonou os palcos. Cruzando ficção com realidade, eis Azul Resplendor, peça que Eva Wilma traz a Caxias sábado e domingo, às 20h, no UCS Teatro.
Na peça escrita pelo peruano Eduardo Adrianzén, Eva é esta personagem que centraliza as ações de uma comédia que mostra o mundo do teatro, seus tipos e suas idiossincrasias.
— É um humor crítico, como eu gosto — contou a atriz, por telefone, falando que, embora a montagem festeje seus 80 anos de vida e 60 de profissão, este não é um recurso oportunista:
— Essas datas foram coincidência, não foi ideia minha. Durante toda a minha carreira não escondi minha data de nascimento. Não ligo pra isso. Só que, às vezes, como o aniversário é perto do fim do ano, acabam aumentando um ano.
Com fôlego para perambular pelo Brasil com a montagem há um ano e meio, ela lidera um elenco formado por Genézio de Barros, Guilherme Weber, Luciana Borghi, Débora Veneziani e Felipe Guerra. A direção é de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas.
— O Borghi e o Elcio estavam viajando no projeto Embaixada do Teatro Brasileiro por países hispânicos e trouxeram o texto. Foi eu acabar de ler e me apaixonar — conta. Misturando os anseios de cada personagem que cruzam no palco, a trama evidencia a capacidade que o teatro tem de produzir emoções nas pessoas.
— A peça abre com um pequeno monólogo sobre a finitude da vida e encerra com uma declaração de amor ao ator — antecipa Eva Vilma, que está animada para para reencontrar o público caxiense que conhece há tempos:
— Adoro Caxias, que é uma cidade de um nível cultural muito bom.
Azul Esplendor chega ao Recife para duas apresentações neste sábado (2), às 21h, e domingo (3), às 20h, no Teatro RioMarFoto: João Caldas/ divulgação
"Eu tinha 19 anos e fazia o papel da mocinha da peça. Não era um papel muito grande, mas era importante e a peça foi um sucesso. Eu era viçosa, alegre, ligeira como uma gazela e ... que corpinho! Como eu era elegante. Mas eu não era só bonita, era também uma boa atriz. Recebi muitos convites para trabalhar e acabei me transformando numa estrela. Logo vieram a televisão e também o cinema. Fiz alguns bons filmes, muita televisão e grandes peças de teatro". O depoimento é de Blanca Estela, mas poderia ser da atriz Eva Wilma, que interpreta essa grande dama do teatro no espetáculo Azul Resplendor. A peça chega ao Recife para duas apresentações neste sábado (2), às 21h, e domingo (3), às 20h, no Teatro RioMar.
Protagonista de grandes mulheres da televisão e dos palcos brasileiros, a atriz Eva Wilma celebra 60 anos de carreira e 80 de vida em 2014 com uma turnê nacional da peça, escrita pelo peruano Eduardo Adrianzén. Longe de incorporar a soberba que mancha algumas celebridades, Eva explicou sua relação com a personagem Blanca. "Somos bem diferentes na essência, mas há falas dela que poderiam muito bem ser minhas", disse. Por telefone, pedi para Eva exemplificar essa semelhança, foi quando ela narrou o trecho que abre a matéria. "É quase real, é a pura verdade. Em 60 anos de carreira, ralei bastante e continuarei ralando, para falar numa linguagem jovem" completou.
Eva Wilma esteve no Recife há cerca de dois anos com a exposição História dos 70 anos da TV Brasileira. Antes disso, porém, ela veio para apresentar a peça O manifesto, com o ator Othon Bastos. Mais do que uma relação profissional, ela tem com o Recife laços afetivos. "Meu marido Carlos Zara [falecido em 2002] falava muito de Hermilo Borba Filho. Foi responsável pela formação dele como ator, diretor e produtor. Hermilo foi grande referência para nós", declarou a atriz.
Eva Wilma divide o palco com os atores Genézio de Barros, Guilherme Weber, Luciana Borghi, Débora Veneziani e Felipe Guerra. A direção é de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas. A comédia possui uma rara combinação entre humor ácido e delicadeza.
AZUL RESPLENDOR - Blanca Estela Ramírez é uma grande dama do teatro, entre 70 e 80 anos, afastada de seu ofício há mais de 30 anos. Inesperadamente, ela recebe a visita de um fã-ator que escreveu uma peça em memória da mãe falecida. Ele decide procurar Blanca para convidá-la a retornar aos palcos como protagonista de sua obra. "A peça é um retrato das artes cênicas, do fazer teatral", contou Eva.
Por razões que só ficarão claras no final da peça, Blanca decide aceitar a proposta, desde que a peça seja dirigida por um nome de peso. É convidado, então, o maior diretor teatral da atualidade, que promete surpreender o público montando "o espetáculo da década".
Crítica: Azul Resplendor, com Eva Wilma e grande elenco
A presença de uma das grandes damas do teatro brasileiro, Eva Wilma, numa peça, já é chamariz suficiente para atrair grande público. Uma exposição no hall do Teatro Riomar pincelava a dimensão da carreira da atriz, que já fez as peças Um Bonde Chamado Desejo eEsperando Godot, além de ter protagonizado novelas icônicas da Tv Globo. Por todo esse trabalho teve o massivo reconhecimento da crítica especializada. Comemorando 60 anos de carreira, Wilma protagoniza a magnífica peça Azul Resplendor – A Comédia do Teatro, com grande elenco para acompanhá-la em cena.
Com Genézio de Barros, Eva Wilma compõe o coração do espetáculo. As cenas entre os dois estão entre as mais ternas e também ácidas. Ele interpreta um ator fracassado que é fã de uma grande atriz, que está aposentada e solitária. Após a morte de sua mãe, e com a herança de 1 milhão de dólares, ele, Tito Tápia, escreve uma peça desejando o grande retorno de sua musa e paixão platônica Blanca Estela Ramirez. Não estranhe os nomes latinos, afinal o texto é de um dramaturgo teatral e autor de televisão peruano bastante premiado e prolífico, chamado Eduardo Adrianzén. Guilherme Weber interpreta brilhantemente Antônio Balaguer, ‘o diretor de teatro mais respeitado e badalado do país’. Parece um papel sob medida feito para o ator, que já tem um aspecto antipático, talvez marcado por determinados papéis em novelas globais. O personagem fica com a segunda melhor porção do texto, quando por exemplo divaga sobre o atual estado do teatro no Brasil e porque ele é incrível. É um quase megalomaníaco bastante magnético.
Luciana Borgui faz Glória, assistente de Balaguer, responsável por organizar as produções do ‘gênio’. Debora Venezeani interpreta Luciana Castro, a ‘melhor atriz de sua geração, protagonista absoluta em teatro, cinema e televisão’. Felipe Guerra faz Giancarlo Varoni, o ‘galã mais desejado da televisão’, que utiliza sua beleza a seu favor com proeza. Seu personagem tem uma ironia tênue, que poderia cair no caricato, mas felizmente não é o acontece. Parecem estereótipos, não é? Não apenas. Esses personagens são muito bem trabalhados para fazer uma refinada crítica a como o ‘sistema’ de dramaturgia num país latino-americano funciona.
É patente a cena onde, numa coletiva de imprensa para divulgação da peça, os jornalistas, em gravação em off, fazem perguntas sempre direcionadas a televisão e ao cinema, os meios mais midiáticos, deixando o teatro absurdamente escanteado, apesar desse ser o foco pretendido da coletiva. Merecem nota também a referência às redes sociais. Balaguer adora tirar fotos com famosos para o Instagram. A Tito é recomendado que ele faça um perfil no Facebook, para ele ter oportunidade de ‘falar o que quiser’, uma crítica fina em tempos de oversharing e egocentrismo na rede social. Além dos monólogos poéticos que abrem e fecham Azul Resplendor, o texto tem vários momentos de brilho. Por exemplo, quando uma personagem reclama que um celular está tocando na plateia, e que vai esperar a pessoa atender; o que era tudo uma pegadinha genial, que provavelmente a maioria do público caiu, pela que frequência que essa situação constrangedora ainda acontece em eventos de todo o tipo.
As citações merecem um parágrafo só para si. ‘Ninguém fica em paz, todo mundo quer uma recompensa ao fechar o livro’. ‘Quando a gente consegue vencer a timidez quando jovem, a gente se livra de tanta coisa difícil!’. ‘Um cabide representava melhor que você!’. ‘Nós vivemos a mentira, nós nos alimentamos disso’. Se tivesse dado tempo de anotar, reproduziria uma porção do texto de uma cena em que Blanca aponta sem piedade todos os erros de Tito como ator, dando uma verdadeira aula de teatro, e evidenciando as camadas complexas do ofício.
O público pareceu gostar muito do espetáculo. As risadas frequentes reverberavam pelo teatro, num efeito interessantíssimo. Se estivesse em longa temporada, tenho certeza que muitas pessoas voltariam, afinal é um texto tão denso que se você não estiver extremamente focado, perde parte do humor. Quanto à encenação, algumas pontuações. É inventiva a parte onde uma câmera de vídeo, cujas imagens são reproduzidas em três TV’S na vertical, é utilizada para filmar Balaguer numa egotrip fantástica; um dos recursos cênicos que as novas tecnologias disponibilizam. A quarta parede já havia sido quebra desde o início do espetáculo. A iluminação adiciona ao drama, com muitas variações criativas, que põem em evidência elegante os momentos gloriosos da peça. Quanto à direção de atores, não tenho como ter certeza se a orientação do diretor Renato Borghi, também um ator premiadíssimo, tenha adicionado uma camada extra de brilho ao trabalho super competente do elenco, talentosíssimo. Como terá sido dirigir Eva Wilma, que se apresenta num patamar superior com sua Blanca, habitando a personagem com uma maestria invejável, que só as atrizes de décadas de experiência conseguem atingir?
Por fim, há uma discussão tímida no texto se o ‘a peça é a direção’ ou se ‘a peça é o texto.’ Em Azul Resplendor, o que se destacou mesmo foi o texto de Adrianzén, interpretado por um elenco irretocável. Que venham mais espetáculos dessa qualidade para Recife!
“Enxerguei aqui os meus ideais”, diz Eva Wilma sobre a Cidade do Saber
Publicado em 29/08/2014 14:57:00
Se a atriz Eva Wilma, com seus 80 anos de idade e mais de 60 de carreira, deixou escapar algum traço de fragilidade durante o espetáculo Azul Resplendor, apresentado no Teatro Cidade do Saber na noite desta quinta-feira (28/08), provavelmente foi pura encenação. O vigor evidente no olhar firme e nos gestos seguros, por sua vez, faz parte do seu estado natural e não a abandona após do som da claquete. Despida de qualquer personagem, ela declarou seu amor pela arte, agradeceu o carinho do público e elogiou o trabalho de inclusão social realizado pela Cidade do Saber.
Embora a essência da montagem teatral esteja impregnada com a intenção de homenagear sua protagonista, a personagem interpretada por Eva Wilma (Blanca Estela Ramírez, uma dama do teatro afastada de seu ofício) passeia entre características que representam tanto a realidade da atriz – quando evidencia um talento altamente reconhecido – quanto o extremo oposto – ao restringir seu sucesso a um período quase esquecido. Eva admite que se diverte nesta peça que brinca com o universo do teatro.
Sensível e atenciosa, Eva Wilma revelou que conhecer o trabalho de valorização da arte e cultura realizado em Camaçari, através da Cidade do Saber, lhe deixou muito feliz e motivou a decisão de realizar a apresentação gratuita no município. “Estou simplesmente maravilhada com a Cidade do Saber. Tive a oportunidade de conhecer a Instituição e enxerguei aqui os meus ideais. Nem imaginava que pudesse existir isso, e aqui existe, no nosso país. Parabéns!”, declarou.
O calor e a energia da plateia contribuíram para que o sentimento de satisfação da atriz fosse completo. Na manhã desta sexta-feira (29/08), a prova de que o encantamento não foi momentâneo viria em um gesto gentil. Eva fez questão de entrar em contato com a diretora geral da Cidade do Saber, Ana Lúcia Silveira, e reforçar a impressão positiva que a Instituição lhe causou, agradecendo a boa receptividade e incentivando a continuidade do trabalho de transformação social através da arte, esporte e cultura.
Assistir ao espetáculo “Azul Resplendor” não é um prazer pelo simples fato de ser uma peça boa. Aliás, muito boa! É um prazer porque o texto do autor peruano Eduardo Adrianzén é engraçado e emocionante sem ser comum ou piegas. Um prazer também porque o cenário de André Cortez e o figurino de Simone Mina são modernos e se encaixam perfeitamente em cada ocasião. E um grande prazer pela impecável atuação de Luciana Brites, Felipe Guerra, Luciana Borghi, Dalton Vigh, Pedro Paulo Rangel e Eva Wilma. Essa última, uma das maiores damas da atuação nacional.
Foto de divulgação de “Azul Resplendor”
São mais de sessenta trabalhos na televisão, entre os principais estão “Alô, Doçura” (de 1954 a 1963), “Mulheres de Areia” (1973), “Malu Mulher” (1981), “Anos Rebeldes” (1992), “História de Amor” (1995), “A Indomada” (1997) e “Mulher” (de 1998 a 1999). No teatro, são quase trinta, como “Black-Out” (1967), “Querida Mamãe” (de 1994 a 1996) e “O Manifesto” (de 2007 a 2008). Além disso, são dezenas de filmes e mais de cinquenta prêmios durante 60 anos de carreira. Fôlego? Ela tem de sobra! “Realizo ‘Azul Resplendor’ com o mesmo entusiasmo de ‘Uma Mulher e Três Palhaços'”, fala sobre o primeiro trabalho como atriz nos palcos, apresentado no Teatro de Arena entre 1953 e 1954.
Não há como não ficar boquiaberto com seu talento. Aos 79 anos, Eva Wilma ainda surpreende no palco. Considerada uma das maiores estrelas de seu tempo, a personagem de Eva – achou que estávamos falando dela, né? -, Blanca Estela Ramírez, deixou os palcos no auge de sua carreira. Reclusa, vive só, até ter sua vida modificada por uma visita inesperada. Com seu impressionante monólogo no início do espetáculo até sua última fala no encerramento da entrevista, a atriz nos prova, com palavra por palavra, porque merece o sucesso que tem. “Não fica nervoso!”, disse Eva ao receber o Setor VIP em seu camarim: “Ela te deixará tranquilo muito rápido. É uma pessoa muito especial”, diz Adriana Monteiro, assessora do espetáculo. Não tínhamos dúvida e, se você a tem, tire suas conclusões após a matéria abaixo.
No camarim da peça “Azul Resplendor”
Setor VIP: Além de ter uma carreira muito bem-sucedida, o que você tem da sua personagem?
Eva Wilma: Uma das coisas que existe em comum comigo é o texto, que contém a coisa que mais gosto: o humor crítico. A possibilidade da gente rir de nós mesmos. Outra coisa que existe em comum é que é a personagem mais difícil disso tudo, porque ela não faz muita dissertação sobre a profissão como todo mundo faz, ela tem as verdades dela e… vou falar para você uma coisa: é a terceira personagem que faço que anuncia que vai morrer no final (risos), eu não quero fazer mais nenhuma por enquanto, essa está de bom tamanho! A primeira foi em “Querida Mamãe”, da Maria Adelaide Amaral, que foi muito bom fazer junto com a Eliane Giardini e a segunda foi “O Manifesto”, junto com o Othon Bastos.
Setor VIP: “O Manifesto” também estreou no Teatro Renaissance…
Eva Wilma: …estreou aqui e depois a gente correu. Fizemos o espetáculo no Rio de Janeiro e em várias outras capitais.
Setor VIP: Qual a sensação de estar no palco após 60 anos de carreira? Sente-se diferente?
Eva Wilma: Me sinto experiente. Me sinto bem e muito mais segura do que no começo. Nunca deixei de fazer o exercício teatral. Eu comecei no (Teatro de) Arena e fiquei durante dois anos. Aquilo é o exercício teatral ao vivo, não precisa ser nem no palco. Aprendi muito e nunca parei de voltar ao teatro. Faço questão de dizer, faço televisão porque aprendo com televisão, gosto e acho útil também porque te projeta no país todo e teu público vai mais ao teatro. Nunca deixei de esporadicamente voltar ao trabalho teatral que, para mim, é onde o ator evolui. Se você ficar muito tempo só na TV aberta, inevitavelmente você corre o risco de te rotularem.
Setor VIP: Fazer o mesmo papel sempre…
Eva Wilma: …você dá certo em uma personagem e aí vai repetir a personagem. No cinema, quem realiza pra valer é o diretor, só que no trabalho teatral, embora você dependa da partitura que é o autor e do maestro que é o diretor, na hora do “vamos ver” o ator é absoluto em cena e é a grande escola onde você evolui, onde você tem a oportunidade de todas as noites mergulhar novamente em tudo aquilo que você estudou para realizar o personagem. Nunca é tudo igual.
Setor VIP: Você deve receber inúmeros convites de trabalho. Como é a escolha do projeto que decide participar?
Eva Wilma: Geralmente eu produzi. No meu primeiro casamento quem produzia era o John Herbert (1929 — 2011, foram casados de 1955 até 1976), que fez grandes produções, inclusive um dos trabalhos mais bonitos que participei. Era uma peça em que eu interpretava uma cega. Trabalhei quatro vezes com o Antunes Filho, ele foi um dos meus principais mestres. No segundo casamento, casei com um engenheiro (Carlos Zara, 1930 — 2002, casou-se em 1977 até 2002) que entendia de tudo de produção e além do mais era um ator e um diretor e nós conseguimos fazer vários trabalhos de teatro durante dois anos. Inclusive consegui a façanha de fazer turnê teatral ao mesmo tempo em que gravava novela para a televisão.
Setor VIP: Era complicado?
Eva Wilma: Era. Mas é aquela fase em que o jovem fala “ralei”, sabe? E eu ralei, mas só prazerosamente (risos).
Setor VIP: Profissionalmente, falta algum sonho a ser realizado?
Eva Wilma: Quando a gente chega nessa fase da vida, a gente vive intensamente o dia de hoje, cada dia, intensamente. Quando esse texto me foi trazido pelo (Renato) Borghi, eu mergulhei e falei: “É esse!”. Eu estava com dois outros projetos em andamento, quando acabar esse daqui – que eu espero que dure bastante! – aí vou voltar aos outros projetos. Quando for chamada de novo para um trabalho na televisão eu vou analisar e vou querer fazer. E para o cinema também! Tenho a maior satisfação de ter participado do “Cidade Ameaçada” (1960) do Roberto Farias e do “São Paulo S/A” (1965) do (Luís Sérgio) Person. Então, sempre digo assim: “Eu não sou de televisão, de teatro ou de cinema, eu sou só atriz” e quero evoluir sempre, quero aprender sempre e quero ter principalmente sempre prazer em fazer o que eu estou fazendo. O reconhecimento do público que se manifesta, inclusive as pessoas mais simples, é muito bonito, é muito agradável, porque é para o público que a gente faz o trabalho.
Setor VIP: Você sente saudade de algum personagem em específico?
Eva Wilma: Todos os que citei dão saudade! Da personagem do “São Paulo S/A”, da personagem cega do “Black-Out”, da personagem do “Querida Mamãe”, da personagem de “O Manifesto”… todos dos quais mergulhei intensamente para mim são inesquecíveis e esse que eu faço agora é resultado de todos eles.
Setor VIP: Algum a ponto de querer remontar?
Eva Wilma: Tem um que penso em remontar, que é um dos projetos que eu estava… é um projeto de um autor que é quase de vanguarda e quem dirigiu foi um diretor que a gente chama de “Senhor Teatro” que é o Flávio Marinho, que já foi crítico e que atualmente é diretor. Um espetáculo que tenho certeza… (emocionada) é só achar o parceiro ideal.
Setor VIP: Quais são as lembranças mais emocionantes de sua carreira?
Eva Wilma: O Teatro de Arena tem coisas muito emocionantes. Fomos fazer o espetáculo no Palácio da República para o então Presidente e foi aquele espetáculo que proporcionou ao curador conseguir a sede e é essa a sede que está lá até hoje do jeitinho que a gente inaugurou. Eu brinco que a gente bateu prego lá dentro (risos) e é um pouco verdade isso, sabe? A gente conseguiu aquele espaço e ele está preservado e ainda leva o nome de outro grande mestre que é o Eugenio Kusnet, também aprendi muito com ele*.
*Em 1954, o Teatro de Arena apresentou-se com a peça “Uma Mulher e Três Palhaços” para o Presidente da República, Café Filho, no Palácio do Catete no Rio de Janeiro e ganharam sua sede própria, preservada exatamente igual até hoje. Nos anos 2000, foi renomeado para “Teatro Funarte de Arena Eugenio Kusnet”. Eugenio (1898 – 1975) foi um importante ator, diretor e professor russo, radicado no Brasil.
Esses são momentos que se eu fosse te descrever… (emocionada) o que vivenciei na peça “Black-Out”, o que vivenciei em vários momentos da carreira, aí começo a te contar as turnês de quando eu ainda era bailarina, pelos teatros do Brasil inteirinho e que tive oportunidade de voltar várias vezes… são momentos inesquecíveis para mim.
A peça “Azul Resplendor” está em cartaz no Teatro Renaissance em São Paulo às sextas (21h30), sábados (21h00) e domingos (18h00). Os ingresso vão de R$40,00 (meia) a R$80,00 (inteira) e podem ser encontrados em www.ingressorapido.com.br. Mais informações emwww.azulresplendor.com.br.
Texto do peruano Eduardo Adrianzén ganha montagem brasileira; leia entrevistas
Divulgação/João Caldas
Eva Wilma em "Azul Resplandor"
“O que significam o sucesso e o fracasso? O teatro é um pano de fundo, um ambiente para falar desse tema, porque é um lugar onde o ego fica muito visível", diz o dramaturgo peruano Eduardo Adrianzén, autor da peça "Azul Resplendor", em entrevista ao iG. A peça está em cartaz em São Paulo, no teatro Renaissance.
No elenco, nomes experientes nas artes cênicas brasileiras como Eva Wilma, que vive a protagonista Blanca Estela, uma atriz reclusa que desistiu de atuar no auge da carreira. Pedro Paulo Rangel interpreta Tito Tápia, um ator medíocre que revela, com algumas décadas de atraso, sua paixão por Blanca. Tito ainda faz um convite inusitado: presenteia a amada com um espetáculo que a faz retornar aos palcos.
Blanca aceita o presente, por razões que são reveladas ao final da peça, e Tito contrata Antônio Balaguer, diretor de teatro que é famoso por suas montagens tidas como de vanguarda. Com o elenco escolhido, as peças - ficcional e real - desenrolam-se simultaneamente em diálogos cínicos sobre o comportamento e as expectativas de pessoas famosas e aspirantes.
Dalton Vigh faz o diretor ególatra Antônio Balaguer, Luciana Borghi é Glória Campos, assistente dele, Luciana Brites é Luciana Castro, uma atriz em ascensão, e Felipe Guerra é Giancarlo Varoni, um ex-modelo que segue a carreira de ator após ser revelado em um reality show.
A direção é de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas, que fizeram pesquisas em 15 países da cena ibero-americana até se decidirem pela montagem de "Azul Resplendor".
"Alguns amigos diretores levaram (o texto) um pouco a mal, mas não há ressentimentos. Eu explicava que a obra falava de uma percepção de fracasso ou de sucesso, e não que era um ataque a alguém", explica o autor do texto sobre os poucos que se ofenderam com a acidez das palavras.
"Eu não acho que esse texto seja um 'tapa na cara' (de jovens atores e profissionais do teatro), ao contrário. Aliás, isso não se restringe só ao teatro, abrange também outras profissões", analisa Eva Wilma, 79, ao iG. A atriz celebra em 2013 seus 60 anos de carreira.
Cenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João Caldas
1/7
Em um dos momentos reflexivos do texto, Blanca indaga se sua "reaparição como atriz" não seria uma "ressurreição". A plateia ri, talvez pela forma descontraída com que Eva fala mas, nas entrelinhas, o texto aponta para a possibilidade de nunca mais atingir relevância pública e a expectativa, baixa ou alta, que se tem quanto a isso.
"O texto mostra um lado que todo mundo conhece, sabe que existe, mas não tem coragem para expor. Vivemos em uma sociedade onde todos querem ser celebridades, todos almejam seus 15 minutos de fama", diz Felipe Guerra, que interpreta o ator e ex-modelo Giancarlo. "Todos pensam que ele é burro, mas sua inteligência está em administrar a beleza e a carreira".
Leia abaixo a entrevista com o dramaturgo peruano Eduardo Adrianzén:
iG: Você teria tornado o texto da peça tão crítico por ser um observador de teatro? Eduardo Adrianzén: Para mim, o tema de “Azul Resplendor” é mais como: "O que significam o sucesso e o fracasso?” O teatro é um pano de fundo, um ambiente para falar desse tema, porque é um lugar onde o ego fica muito visível. Não é que haja mais ego, mas ele só se torna mais notável, mais transparente. (O texto) é crítico, sim, mas eu trabalho com críticas sempre. Exercê-la é uma característica do meu trabalho.
iG: Os personagens tiveram inspiração em situações reais? Eduardo Adrianzén: Um pouco sim, mas de forma exagerada. Conheço atrizes e atores semelhantes, um ou outro diretor parecido com o Balaguer. Mas, na verdade, os personagens são uma mescla de muitos. Que eu saiba, no Peru nenhum autor teve o texto de sua montagem totalmente alterado, felizmente!
iG: Você gostou da montagem brasileira? Quais são as principais diferenças em relação à peruana? Eduardo Adrianzén: Gostei muito. A montagem do Renato e do Elcio trouxe um ritmo fantástico. A montagem peruana foi linda também, mas de outra forma. Foi mais melancólica, mais dramática. Na montagem brasileira tem muito mais de comédia, o que me parece genial.
iG: Na peça, há um personagem que vira ator depois de participar de um reality show e outro em que a atriz é assediada pelo diretor. Você acha que a qualidade técnica dos atores estaria em segundo plano? Eduardo Adrianzén: No Peru há um tipo diferente de problema, que começa porque não há uma indústria e não se tem apoio do governo, exceto no município de Lima, onde há fomentos e ajudas. Faltam profissionais em algumas áreas, é verdade, mas há muitos atores. E muitos, mesmo sendo bons, não têm trabalho enquanto um país racista como o Peru disser que a beleza tem de ser branca, ou aquilo que os peruanos acreditam que seja o “branco”. Isso ajuda (o ator branco) a ter trabalho em teatros que pagam melhor, é um fato. Um ator negro ou índio terá muito mais trabalho para entrar nesses círculos, por mais talento que tenha. Pode entrar, mas levará muito mais tempo que aqueles que não o são.
iG: Algum colega se ofendeu com as palavras ferozes do texto?Eduardo Adrianzén: Um pouquinho. Alguns amigos diretores levaram um pouco a mal, mas passou rápido, não há ressentimentos. Eu explicava a eles que a obra falava de uma percepção de fracasso ou de sucesso, e não era um ataque a alguém. Ainda que alguns tenham acreditado que era um ataque.
iG: Há algum tipo de lição para atores, produtores, escritores ou diretores principiantes? Eduardo Adrianzén: Não, mas acredito que pode ser divertido que alguns atores jovens, belos e talentosos saibam que os mais velhos percebem o que os mais jovens pensam de fato. Principalmente aqueles que se importam com televisão e fama mais do que com o teatro.
iG: Eva Wilma contou ao iG que você já conhecia o trabalho dela. Foi um pedido seu que ela fizesse a peça? Eduardo Adrianzén: A Eva Wilma é uma grande atriz, a conheço pela TV desde que as novelas brasileiras chegaram ao Peru, aproximadamente nos anos 1980. É um presente que ela esteja na peça, nunca imaginei tanta sorte. Mas eu não pedi nada, confiei o texto ao Renato e ao Elcio, que escolheram os atores. Pedro Paulo Rangel e Dalton Vigh eu também conhecia por seus trabalhos na TV. Essa montagem em São Paulo é uma das melhores coisas que aconteceram na minha carreira e sou muito grato por isso.
"Azul Resplendor"Teatro Renaissance (al. Santos, 2.233, São Paulo) De 18/7 a 6/10 Horário: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia) Classificação: 12 anos