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segunda-feira, 16 de outubro de 2017


sábado, 14 de outubro de 2017

Gino e Rebeca juntos




sábado, 2 de janeiro de 2016


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Pato com Laranja, O Preço e o Manifesto: Jefferson Del Rios Crítica Teatral.

Pato com Laranja: 
Pato com Casamento e o Humor das Laranjas 
18 de março de 1980 
Um bom, simpático e elegante ator brasileiro em comunhão com a fidelíssima plateia: Paulo Autran. Uma encantadora Eva Wilma de volta ao palco. Um autor inglês sem a menor importância, mas que sabe construir engenhosamente sua trama: William Home. É, por fim, a volta sentimental ao Brasil do diretor italiano que abrilhantou as sempre lembradas noites do TBC: Adolfo Celi. Pronto: isto é Pato com Laranja. O enredo não podia ser mais british, mais Holand Park: uma fina senhora comunica ao fino senhor seu marido que o tédio conjugal atingiu limites insuportáveis, até mesmo para a paciência de uma inglesa, que, em decorrência, providenciou alguém que lhe ofereça os estímulos dos arroubos amorosos. O que se passa em seguida é torneio de florete sentimental: cutiladas e espetadinhas maldosas de parte a parte diante do amante, que acaba se fazendo presente, e da desfrutável secretária do marido posto de lado. Ah: para arrematar, contamos com indignada presença da governanta encarregada de preparar o pato com laranja. Uma peça tranquila como os verdes prados ingleses. Ninguém sofre muito, apesar dos conflitos de amor. Não esperem, em absoluto, fisionomias transtornadas como quadros de Francis Bacon. Não. Tudo se resolve com sense of humor. Afinal, estamos na pérfida Albion. Um espetáculo para levar adiante uma peça comercial inglesa, digna de Alec Guinnes em temporada de verão, não poderia ser encenado assim sem maiores cuidados. E capricho realmente é o que não faltou no trabalho de Adolfo Celi. As cenas deslizam impecáveis em um ambiente construído com o deliberado propósito de deslumbrar o público. Homens e mulheres não resistem à tentação de, a cada nova entrada, ostentarem mais uma criação do costureiro Guilherme Guimarães. Foi mesmo uma pena que não tenham trazido para São Paulo aquele espantoso vaso de porcelana que adornou a temporada carioca. 
Aviso aos navegantes: Pato com Laranja tem ainda Karin Rodrigues, muito bonita e de penteado novo. Ela faz uma ótima secretária, especialmente feminina num conjunto inspirado na fantasia de Pierrot. Paulo Autran está visivelmente feliz. Ele deve se divertir imensamente em extrair tudo e algo mais de um papel feito como uma luva para seu tipo físico e estilo de representar. Paulo permanece impávido até o fim, acumpliciado com os espectadores, caloroso e firme como um campeão de golfe na intensa companhia de Eva Wilma. Suas tacadas bem-distribuídas deixam margem de jogo para todos os parceiros, como, por exemplo, Márcio de Luca, responsável pelo desastrado amante. Pato com Laranja representa, no Brasil, o esplendor do teatro burguês. O tipo do espetáculo que atende às expectativas e à ideologia de uma faixa do público que sempre existiu e, agora, se ampliou após os resultados da concentração de renda. Toda a concepção da história, moralista, conservadora e inegavelmente chauvinista (o marido indiferente, infiel, etc., etc. acaba provando que está certo, além de ser boníssimo) gratifica essas pessoas. Os novos ricos, a classe média local e – claro, como não – o velho São Paulo se encontrarão satisfeitos nas artimanhas inventadas por Willian Home e executadas com competência artesanal por Adolfo Celi, que 
trabalhou pensando provavelmente em todos borghesi romani. Temos, enfim (ou novamente), 
o espetáculo para a elite dominante (e agregados). Se o Terceiro Mundo se manifesta a dois passos do Teatro Brigadeiro através de uma quadrilha de cambistas de ingressos e agressivos guardadores de carros, isto já é outra história. O teatro brasileiro acompanha a divisão desta terra em dois países e não se vai falar em marmita na hora de pato com laranja. 

O Preço: Sonhos Traídos, em O Preço 
7 de abril de 1989 
Um corte transversal no cerne do capitalismo americano, nos instantes de crise e crueldade, e uma prospecção psicológica, de forte densidade poética. Talvez seja essa a melhor maneira de se entender o teatro de Arthur Miller, que, embora tenha sua parte mais rica produzida entre as décadas de 1940 e 1960, ou seja, hoje com uma considerável idade, não perde o impacto. Desde 1949, com A Morte do Caixeiro Viajante, até 1968, com O Preço, Miller ocupa o quase solitário papel de fazer em cena a dissecação do lado sombrio do american way of life, da mesma maneira que Sinclair Lewis, John dos Passos e John Steinbeck o fizeram no romance. Miller, que, na realidade, é um compassivo reformista e não o comunista que a idiotia macartista viu nele, pega fundo na alma do espectador, porque tem um texto conciso e, com duas ou três cenas, consegue expor o drama humano com pungência. Como na pintura de Edward Hooper, ele trabalha com os espaços desertos das metrópoles norte-americanas; só que Miller mostra, além da paisagem hostil da cidade, o vazio existencial de gente que pensou estar segura na vida ao crer que a América é justa e sempre haverá um new-deal rooseveltiano para insuflar esperanças. Arthur Miller fala justamente de esperanças traídas. Tudo isso está em O Preço, em que dois irmãos se defrontam ao vender os últimos móveis e objetos da casa dos pais, falecidos. Um deles venceu na vida, é o precursor daquele tipo que seria um dia chamado de yuppie; o outro escorregou pela trilha do fracasso é não passa de um policial sem graduação. Por que um deles achou o caminho do sucesso, e o outro não, é a matéria-prima dramática da peça. A conversa dos irmãos – o empobrecido acompanhado pela mulher também frustrada – tem um crescendo de agressividade e ressentimento revelador do preço de uma vitória ou de uma derrota no coração do capitalismo. Como contraponto irônico ou tristemente cético, o dramaturgo introduz na ação um judeu octogenário, comprador dos móveis, que observa a humanidade com a sabedoria desencantada de quem conhece todos os desastres. A obra vale pela universalidade de questões que desafiam os tempos e os horizontes, mas não deixa de ser impressionante o paralelismo que se pode estabelecer entre os personagens de Miller e uma vasta parcela da classe média brasileira. O velho judeu Salomon tem uma frase extraordinária que vale por toda uma sociologia sobre São Paulo: A principal coisa hoje em dia é comprar. Antigamente, quando uma pessoa se sentia infeliz, não sabia o que fazer de si mesma, ia para a igreja, iniciava uma revolução, qualquer coisa. Hoje você se sente infeliz? Vá fazer compras. Se fechassem as lojas neste país por seis meses, ia haver massacre. 
Com uma dramaturgia assim, não foi difícil a Bibi Ferreira erguer um espetáculo benm-feito numa produção que respeita o público até na qualidade informativa do programa da peça (hoje em dia, um exagero narcisista na maioria dos teatros, com frases tolas e fotos do elenco). A direção assumiu, do início ao fim, os cânones do realismo teatral, não pretendendo nenhum experimentalismo. A montagem, dentro dessa premissa, é de grande competência, principalmente pela força do elenco. Paulo Gracindo hoje lendário pela composição de Salomon repete a façanha 20 anos após a primeira encenação (com ele, Jardel Filho, Leonardo Vilar e Maria Fernanda). É o ator sábio no ofício, que surpreende por se conter quando o impulso à super-representação é visível. O espetáculo deve também, e muito, do seu apelo dramático aos empenhos emocionados de Eva Wilma, Carlos Zara e Rogério Fróes. É neles que flui a maior torrente emotiva de O Preço. Descontados eventuais derrames teatralescos momentâneos, Zara e Fróes se enfrentam com paixão e fúria, enquanto Eva incorpora a impotência feminina, clássica em tais circunstâncias familiares e sociais; teatro, enfim, com alma, sobre ilusões e fracassos. 

O Manifesto: 
No Palco, Amor em Toque de Retirada 
24 de maio de 2007 
O general prussiano Carl von Clausewitz (17801831) descreveu a guerra como uma continuação da política por outros meios. É uma definição célebre, e sua obra é um clássico sobre o tema. O casal da peça O Manifesto, do inglês Brian Clark, no entanto, age ao contrário. Faz da política de mútua tolerância a continuação amenizada de uma guerra conjugal, aliás expressão consagrada, título de um livro de Dalton Trevisan filmado por Joaquim Pedro de Andrade. Mas, neste espetáculo, as coisas são mais graves e mais sutis. O dramaturgo, embora em território conhecido do teatro ocidental, dos gregos a Edward Albee (Quem Tem Medo de Virginia Woolf), passando por Strindberg, Ibsen e Chekhov, faz uma radiografia de classe da sociedade inglesa contemporânea, o que até poderá ser indiferente a nós, mas atinge a todos quando se refere ao amor e seus limites e à morte. O que temos então é outra vez a defesa da compaixão, mesmo que o tempo desgaste relações em qualquer nível. A citação de Clausewitz vem a propósito do marido que em O Manifesto é militar e tem da carreira a certeza monolítica que se encontra quase apenas no exército e nas religiões. A começar pela disciplina vertical indiscutível, a noção do dever a qualquer custo – mesmo dos laços familiares – e a total dificuldade em aceitar a divergência. A mulher seria a clássica senhora elegante na rotina de aceitação do comando masculino; mas supera esta convenção ao assinar um documento contra a ocupação do Iraque. Se-ria um gesto pacifista comum não fosse ela uma Lady de um general do país que mais se atrelou à política externa dos Estados Unidos, e se esta tomada de posição não tivesse sido publicada no jornal The Times, instituição nacional britânica. O manifesto desencadeia a batalha interna entre os dois. Quase não muito diferente do que se vê no teatro e no cinema, mas reforçado por dois acontecimentos graves entre pessoas juntas há 50 anos. Um deles é pressentido pelo público logo que Lady sente uma pontada de dor, mas 
o segundo – para continuar no jargão bélico – é bomba de efeito retardado. Este o trunfo de Brian Clark que, sem ser um dramaturgo inovador (o texto continua seu carro-chefe), executa bem o que se propôs: A função de uma peça não é ensaiar argumentos políticos e, sim, atingir o âmago da psique humana, para encontrar as fontes de ação que animam nossas vidas como indivíduos e nações. Um tanto retórico, mas a parte humana está bem-resolvida, sobretudo quanto à perspectiva do declínio da vida, da solidão. Aqui, Clausewitz cede lugar a Freud. O original contém sutilezas cifradas para nós. Ao contrário do Brasil, a carreira militar na Europa é mais destinada às elites. O marido é filho de marechal – o píncaro glorioso da carreira –, mas se aposentou apenas como general de brigada, o menor grau do generalato (que, em ascendência, inclui general de divisão e de exército). Ela é Lady e não é qualquer inglesa que pode ser tratada como tal. Há frustrações conjugais e também de classe em questão. Ser fiel ao trono, ter o título de Sir, ser criado na memória do Império Britânico, isso tudo é tão forte quanto as aparências em caso de adultério ou o acesso aos exclusivos e esnobes clubes masculinos, outra instituição inglesa imbatível. É uma peça para intérpretes superiores e aí o elegante espetáculo do diretor Flávio Marinho está com a nobreza do teatro brasileiro: Eva Wilma e Othon Bastos. Ela comove desde o começo porque sua personagem, de certa forma, tem mais memória emotiva a ser explorada. É seguramente um dos seus melhores desempenhos. Othon Bastos – como os grandes jogadores, seja de xadrez, seja de algum esporte físico – tem um terço da peça para impor seu personagem, virar 
o jogo. De início, Othon parece usar sua reserva técnica de artista com gestos e entonações de voz. Contudo, quando, enfim, o general abandona a postura blindada e as noções de estratégia militar entre as quatro paredes do lar e atira sua granada, aí estamos face ao soberbo ator. O tremendo general Clausewitz aplaudiria (e como a vida é irônica, seu tratado Da Guerra Von Krieg foi publicado só depois da sua morte. Pela viúva). Belo paradoxo. No momento dramático da paz entre as figuras de ficção é que os intérpretes travam um duelo memorável. Ao fim, trocam continências com ironia e esperança. E o público troca salva de canhões por salva de palmas. 

http://aplauso.imprensaoficial.com.br/edicoes/12.0.813.790/12.0.813.790.txt

Djalma Limongi Batista comenta Asa Branca

E, para convencer a Eva Wilma, eu contei com a ajuda de sua filha com John Herbert, Vivian Buckup, uma menina linda de morrer, que eu conheci lá na ECA enquanto fazia o Rasga Coração. Inicialmente, eu a queria como namoradinha do Asa e Eva como mãe dele. Mas Vivian não se interessou de pronto, só depois toparia o papel.